{"id":11139,"date":"2022-08-04T10:27:46","date_gmt":"2022-08-04T13:27:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jinsai.org\/pt-BR\/?p=11139"},"modified":"2022-08-04T10:27:46","modified_gmt":"2022-08-04T13:27:46","slug":"a-arte-de-danjuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jinsai.org\/pt-BR\/ensinamentos\/arte\/a-arte-de-danjuro\/","title":{"rendered":"A ARTE DE DANJURO"},"content":{"rendered":"<div id=\"pl-11139\"  class=\"panel-layout\" ><div id=\"pg-11139-0\"  class=\"panel-grid panel-no-style\" ><div id=\"pgc-11139-0-0\"  class=\"panel-grid-cell\" ><div id=\"panel-11139-0-0-0\" class=\"so-panel widget_sow-editor panel-first-child\" data-index=\"0\" ><div\n\t\t\t\n\t\t\tclass=\"so-widget-sow-editor so-widget-sow-editor-base\"\n\t\t\t\n\t\t>\n<div class=\"siteorigin-widget-tinymce textwidget\">\n\t<p style=\"text-align: justify;\">Desde outrora apareceram muitos mestres sobre a face da Terra. Todavia, fica evidenciado pelo fato de existirem muit\u00edssimos poucos mestres verdadeiros que consiste tarefa dific\u00edlima tornar-se um deles. Penso eu sempre assim. Em certo sentido, a contribui\u00e7\u00e3o deles para com a humanidade \u00e9 incomensur\u00e1vel e, por isso, n\u00f3s lhes devemos ser gratos. Diria, outrossim, que o mestre \u00e9 o fruto do esfor\u00e7o do g\u00eanio; o resultado do esfor\u00e7o do med\u00edocre \u00e9 tornar-se algu\u00e9m h\u00e1bil. Contudo, por mais alto o est\u00e1gio a que atingiram os mestres do passado, por n\u00e3o contar com meios de conhecer isso, farei gradualmente minha aprecia\u00e7\u00e3o daqueles mestres que vi e ouvi at\u00e9 os dias presentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentre os mestres que ainda hoje n\u00e3o consigo esquecer, h\u00e1, no teatro, o nono Danjuro. Sua reputa\u00e7\u00e3o de mestre \u00e9 por demais conhecida, n\u00e3o havendo, portanto, necessidade de eu fazer coment\u00e1rios a seu respeito. Destarte, porei aqui apenas as impress\u00f5es daquilo que vi. N\u00e3o me esque\u00e7o. Tinha eu uns vinte anos. Provavelmente a \u00e9poca em que Danjuro se encontrava no apogeu de sua carreira. Posso dizer que eu assistia unicamente as dezoito pe\u00e7as que compunham o repert\u00f3rio da fam\u00edlia Ichikawa. Creio que ele depois de velho n\u00e3o se apresentava sen\u00e3o em pe\u00e7as intermedi\u00e1rias. Como mestre, a caracter\u00edstica de sua arte era bastante distinta da dos demais atores: ele ficava completamente im\u00f3vel ao se apresentar no palco. Sua arte \u00e9 classificada como sendo a da express\u00e3o psicol\u00f3gica. Realmente era assim. Quase n\u00e3o havia movimento; inexistia o que se pudesse chamar propriamente de t\u00e9cnica. No entanto, ele magnetizava inteiramente a plateia: um verdadeiro mestre. Dizem que nenhum outro ator era capaz de criar no palco tens\u00e3o como a que ele criava. Tamb\u00e9m isso \u00e9 verdade. Vou descrever aqui as impress\u00f5es que tive de umas duas ou tr\u00eas apresenta\u00e7\u00f5es suas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele adorava fazer pap\u00e9is de her\u00f3is e grandes personagens, talvez numa manifesta\u00e7\u00e3o de sua personalidade. Dentre as interpreta\u00e7\u00f5es que assisti, eis as mais inesquec\u00edveis: o Benkei, da pe\u00e7a Lista de Donativos, o Saemon-nojo Sakai, da pe\u00e7a O Tambor de Sakai; Kiichi Hogen, em Cantero de Cris\u00e2ntemos; a bruxa, em Coleta de Folhas de Outono; Kato do Terremoto; Tametomo; o Ministro de Mito; Kuemon Kezori e outros. Vai aqui a marcante passagem em que ele interpretou Saemon-nojo Sakai. O pr\u00f3prio Saemon-nojo toca o tambor de guerra em pleno perigo, quando hordas de guerreiros inimigos se acercam impetuosamente do castelo. O tambor rufa sem qualquer altera\u00e7\u00e3o em seu ritmo; as portas descerradas da fortaleza mostram, sob a luz intensa das tochas, que tudo se encontra como sempre. O comandante das for\u00e7as inimigas, temendo que alguma cilada astuciosa esteja sendo engendrada, ordena por fim a retirada. Trata-se da cena em que Saemon-nojo \u2014 tendo em mente um estratagema ousado \u2014 aguarda impass\u00edvel o momento. Espera apenas o correr das horas emudecido, sem mexer sequer uma das sobrancelhas, ao ouvir os repetidos an\u00fancios que seus s\u00faditos, ignorantes do fato, lhe fazem sobre o perigo iminente. Assim, ele est\u00e1 sentado sozinho no meio do palco, de olhos cerrados, com a cabe\u00e7a levemente voltada para baixo, sem fazer o menor movimento. Por isso, quando no fim cessam os comunicados dos seus comandados, sozinho, ele permanece no mais completo sil\u00eancio, durante o espa\u00e7o de quatro a cinco minutos, dando mesmo a impress\u00e3o de n\u00e3o ser algu\u00e9m vivo. A plateia assiste em suspense aquele personagem mudo e im\u00f3vel. Acabou por ficar magnetizada, a imaginar qual ser\u00e1 a atitude a ser tomada por Saemon-nojo a seguir. Nesse momento eu senti a fundo. O fato de um ator de teatro fascinar de tal forma a plateia, apenas estando sentado no centro daquele imenso palco de kabuki, sem mover um \u00fanico m\u00fasculo da face nem emitir um \u00fanico som, \u00e9 simplesmente o suprassumo da arte. Admirei-me profundamente, considerando que aquele, sim, era um mestre de verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recordo-me, ainda, quando ele interpretou Kiichi Hogen, na pe\u00e7a Canteiro de Cris\u00e2ntemos. Este, conquanto desfrutasse de regalias como t\u00e1tico das for\u00e7as da fam\u00edlia Taira, anelava secretamente pela restaura\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia Minamoto. Casualmente, Ushiwakamaru, com o intuito de apoderar-se dos tratados de estrat\u00e9gia e arquitetar o restabelecimento dos Minamoto, passa a morar, sob o nome falso de Torazo, juntamente com seu servo Chienai, na casa de Kiichi, como empregado deste. Entrementes, a filha de Kiichi Hogen, Minazuru Hime, apaixona-se pelo falso Torazo, fato que, naturalmente, provoca contentamento \u00edntimo ao pai. Este, por interm\u00e9dio da filha, torna poss\u00edvel a Torazo roubar os tratados secretos de estrat\u00e9gia guardados nos cofres da fam\u00edlia. Interiormente satisfeito, mas sem poder deixar tal transparecer, por estar servindo aos Taira, Hogen finge n\u00e3o ver o amor que Minazuru Hime dedica a Torazo: eis a interpreta\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica com que deve ser tratado o personagem. A per\u00edcia de sua arte nesse momento \u00e9 imposs\u00edvel de ser descrita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, outrossim, a cena em que o Ministro de Mito executa Mondaiyu Fujii, a pedido do pr\u00f3prio. Depois de abater Mondaiyu de um \u00fanico golpe, ele guarda a espada na bainha, tendo-a limpado do sangue. Logo, sem nem se dignar a olhar para o cad\u00e1ver, retira-se do palco altaneira e calmamente, cantarolando em voz sonora a can\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a A Dan\u00e7a do Deus Drag\u00e3o, atrav\u00e9s de um longo corredor guarnecido de balaustrada. Tamanha era a tens\u00e3o presente em seu ritmo que este chegava quase \u00e0 estaticidade, combinando maravilhosamente com o movimento do palco rotat\u00f3rio. Ainda hoje n\u00e3o me esque\u00e7o da emo\u00e7\u00e3o que experimentei. Na representa\u00e7\u00e3o de Tametomo, para salvar o filho do perigo que se aproxima, ele ata a crian\u00e7a \u00e0 uma pipa enorme, da qual corta o fio ap\u00f3s t\u00ea-la al\u00e7ado \u00e0s alturas. A altiva serenidade de sua fisionomia, ao contemplar o c\u00e9u distante, era fisionomia impass\u00edvel. Uma perfeita express\u00e3o psicol\u00f3gica: m\u00e1gico impacto de Danjuro e a sua arte de representa\u00e7\u00e3o que cativava completamente o espectador jamais\u00a0 poder\u00e3o ser descritas pela palavra oral ou escrita. Segundo o que ouvi na \u00e9poca, quando a plateia o aplaudia ou ovacionava durante a performance, ele a modificava no dia seguinte. Pelo que eu imagino, ele visava com a sua representa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica n\u00e3o a grande p\u00fablico, mas a um s\u00f3 conhecedor. Ap\u00f3s a morte de Danjuro, acabei por perder meu interesse pelo teatro kabuki. Aos meus olhos, uma vez apreciadores da arte de Danjuro, os demais atores refletiam-se por demais inferiores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, a solid\u00e3o advinda da perda do gosto pelo kabuki perdura at\u00e9 os dias de hoje. Contudo, se tivesse que apontar um mestre do kabuki p\u00f3s-Danjuro, citaria Ganjiro Nakamura. Dentre suas representa\u00e7\u00f5es, nunca conseguirei esquecer duas: Jihe, o Vendedor de Papel e A Paix\u00e3o de Tojuro. Para ser sincero, digo que a minha perda de interesse pelo kabuki talvez derive-se basicamente da aus\u00eancia do fator psicol\u00f3gico. Falando sucintamente, s\u00f3 se procura representar com a forma, com a pretens\u00e3o de adular o espectador. Isso abaixa o n\u00edvel da arte teatral. Pode-se afirmar que quase todos os artistas modernos dramatizam exageradamente, se movimentam exageradamente. Danjuro, contudo, passava por cima da forma, procurando sempre representar por meio do sentimento. Tal elevava o n\u00edvel da arte dram\u00e1tica ao seu grau m\u00e1ximo. Analisando a quest\u00e3o de outro v\u00e9rtice, ao representar uma personalidade hist\u00f3rica de destaque, ele transformava-se nesse pr\u00f3prio indiv\u00edduo. Especialmente quando se considera que o japon\u00eas de outrora tinha por ideal o n\u00e3o demonstrar das emo\u00e7\u00f5es, deve-se almejar a inexpressividade. Assim, a personagem que ele interpretava n\u00e3o parecia ser a fantasia de um ator. Ele fazia acreditar na reapari\u00e7\u00e3o daqueles her\u00f3is em suas respectivas eras. S\u00f3 anseio incessantemente que, durante a minha vida, apare\u00e7a mais um mestre do mesmo quilate dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A prop\u00f3sito, passarei a escrever a respeito de uma atriz que incluiria no rol dos mestres. Trata-se da famosa Sumako Matsui. Eu arregalei os meus olhos de admira\u00e7\u00e3o diante de sua excepcional arte de representar, quando ela, ainda jovenzinha, fez sua estreia e come\u00e7ou a adquirir nome, no papel de Nora, na pe\u00e7a Casa de Bonecas, de Ibsen. A partir de ent\u00e3o, jamais deixei escapar uma representa\u00e7\u00e3o sua sem assistir. As \u00faltimas pe\u00e7as em que a vi atuar foram A Mulher do A\u00e7ougueiro, de Kichizo Nakamura, e Carmen. Pareceu-me uma estranha coincid\u00eancia que, em ambos os dramas, a trama constasse da perpetra\u00e7\u00e3o do assassinato da personagem por ela representada: no primeiro, por causa dos ci\u00fames do marido e, no \u00faltimo, por Jos\u00e9. Dois dias depois, ela se suicidava. Acho que a \"coincid\u00eancia\" estava a prenunciar alguma coisa. Todavia, admirei-me de sua atitude como artista, pois, dois dias antes da morte, ela subiu ao palco sem demonstrar o m\u00ednimo abalo que fosse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pretendia discorrer a respeito de outros mestres que n\u00e3o atores, mas, para evitar a prolixidade, fico por aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Ensaios - 30 de agosto de 1949<\/p>\n<\/div>\n<\/div><\/div><div id=\"panel-11139-0-0-1\" class=\"widget_text so-panel widget_custom_html panel-last-child\" data-index=\"1\" ><div class=\"textwidget custom-html-widget\"><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.facebook.com\/plugins\/like.php?href=https%3A%2F%2Fwww.jinsai.org%2Fpt-BR%2Fensinamentos%2Farte%2Fa-arte-de-danjuro&width=174&layout=button_count&action=like&size=large&share=false&height=46&appId=171964893011161\" width=\"174\" height=\"46\" style=\"border:none;overflow:hidden\" scrolling=\"no\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"true\" allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; picture-in-picture; web-share\"><\/iframe>\n<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/pt_BR\/all.js#appId=APP_ID&amp;xfbml=1\"><\/script><fb:comments href=\" https:\/\/www.jinsai.org\/pt-BR\/ensinamentos\/arte\/a-arte-de-danjuro\" num_posts=\"100\" width=\"500\"><\/fb:comments><meta property=\"fb:app_id\" content=\"171964893011161\">\n<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<script>(function(d, s, id) {<br \/>\n  var js, fjs = d.getElementsByTagName(s)[0];<br \/>\n  if (d.getElementById(id)) return;<br \/>\n  js = d.createElement(s); js.id = id;<br \/>\n  js.src = 'https:\/\/connect.facebook.net\/pt_BR\/sdk.js#xfbml=1&version=v3.0&appId=171964893011161&autoLogAppEvents=1';<br \/>\n  fjs.parentNode.insertBefore(js, fjs);<br \/>\n}(document, 'script', 'facebook-jssdk'));<\/script>\n<div class=\"fb-share-button\" data-href=\" https:\/\/www.jinsai.org\/pt-BR\/ensinamentos\/arte\/a-arte-de-danjuro\/\" data-layout=\"button_count\" data-size=\"large\" data-mobile-iframe=\"true\"><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/sharer\/sharer.php?u=http%3A%2F% https:\/\/www.jinsai.org\/pt-BR\/ensinamentos\/arte\/a-arte-de-danjuro%2F&amp;src=sdkpreparse\" class=\"fb-xfbml-parse-ignore\">Compartilhar<\/a><\/div><\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde outrora apareceram muitos mestres sobre a face da Terra. 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