{"id":801,"date":"2018-06-22T11:39:01","date_gmt":"2018-06-22T14:39:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jinsai.org\/pt-BR\/?p=801"},"modified":"2018-07-05T14:29:40","modified_gmt":"2018-07-05T17:29:40","slug":"eu-e-o-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jinsai.org\/pt-BR\/ensinamentos\/arte\/eu-e-o-cinema\/","title":{"rendered":"EU E O CINEMA"},"content":{"rendered":"<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: justify;\">Constitui fato muito bem sabido entre os fi\u00e9is o meu gosto pelo cinema. Ainda hoje procuro assistir a filmes um dia sim, um dia n\u00e3o. Assim, passarei a escrever a hist\u00f3ria, desde o in\u00edcio, de como me aficcionei pelo cinema. A primeira vez em que assisti a uma fita cinematogr\u00e1fica (a que na \u00e9poca davam o nome de fotografias animadas) contava com meus quinze ou dezesseis anos. Havia, ent\u00e3o, no sexto distrito do Parque de Asakusa um pr\u00e9dio de nome Denki-Kan, provavelmente o primeiro cinema de T\u00f3quio. Nem \u00e9 preciso dizer que me assustei com o fato de as fotos se movimentarem. As ondas se moviam, um cachorro aparecia a correr, o povo caminhava pela rua! Fiquei simplesmente abismado com aquilo. &#8220;<em>Que coisa misteriosa e interessante que inventaram!&#8221; &#8211;<\/em> pensei comigo. Como morava em Asakusa na \u00e9poca, sempre que tinha tempo ia ver pel\u00edculas. Entrementes, o conte\u00fado destas foi evoluindo da pura e simples retrata\u00e7\u00e3o de fatos para a sua dramatiza\u00e7\u00e3o. Simultaneamente, o pr\u00e9dio chamado Kinki-Kan &#8211; uma esp\u00e9cie de clube, um audit\u00f3rio p\u00fablico dos dias de hoje sito em Nishiki-cho, no distrito de Kanda &#8211; passou a abrigar o \u00fanico cinema da regi\u00e3o. Na \u00e9poca, o filme <em>O Dem\u00f4nio Aloprado <\/em>&#8211; uma obra da companhia cinematogr\u00e1fica francesa Path\u00e9, creio &#8211; era muito interessante e comentada, lotando o cinema por dias e dias a fio. A especialidade da Path\u00e9 eram filmes de atualidades, dramas e filmes infantis, voltadas para o p\u00fablico em geral. J\u00e1 as pel\u00edculas italianas, em sua grande parte, eram obras longas de cunho hist\u00f3rico, aparecendo mais raramente uma ou outra com\u00e9dia.<\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: justify;\">Nesse meio tempo, o cine Denki-Kan, do Parque de Asakusa, ganhava mais e mais popularidade, chegando-se ao ponto de &#8220;Denki-Kan&#8221; passar a ser sin\u00f4nimo de cinema. Antigamente, como o cinema era uma novidade, as casas ficavam lotadas dias e dias seguidos, e, por serem min\u00fasculas, diferentemente das de hoje, era um sacrif\u00edcio assistir aos filmes. Entrementes, o cinema em si progredia a grande velocidade, com fitas cada vez mais longas, surgindo obras interessantes. Naturalmente as pel\u00edculas eram mudas, influenciando grandemente nelas a per\u00edcia ou a imper\u00edcia do narrador. Lembro-me de que, na \u00e9poca, o famoso Saburo Somei era bastante conceituado, sendo que pouco depois o hoje conhecido Roppa Furukawa passou a atuar como seu assistente. Posteriormente, nas proximidades, apareceu a casa San-yu-Kan. Aqui exibiam-se pel\u00edculas cinematogr\u00e1ficas e o chamado <em>kineorama (1)<\/em> &#8211; algo como um panorama m\u00f3vel. Por meio de cores e eletricidade, criavam-se efeitos que reproduziam com perfei\u00e7\u00e3o os fen\u00f4menos naturais, como borrascas e trov\u00f5es. Por causa disso, teve enorme aceita\u00e7\u00e3o entre o p\u00fablico, por algum tempo. Depois disso, surgiram seguidamente mais casas de exibi\u00e7\u00e3o: Fuji-Kan, Daisho-Kan, Opera-Kan, Teikoku-Kan, Nihon-Kan e outras. Na \u00e9poca, foram grande sucesso de bilheteria os filmes <em>Zigomar<\/em>, <em>Meikin<\/em>, <em>Pegaso<\/em>, etc. Foi a partir de ent\u00e3o que come\u00e7aram a entrar produ\u00e7\u00f5es americanas. At\u00e9 a\u00ed, o que havia era quase que exclusivamente fitas francesas, alem\u00e3s e italianas. Na primeira vez em que assisti a um filme norte-americano, n\u00e3o me cansei de admirar o vigor da representa\u00e7\u00e3o dos artistas, o tamanho dos cen\u00e1rios; a rapidez do tempo, etc. Isso proporcionou \u00e0quelas obras s\u00fabita popularidade. N\u00e3o \u00e9 de se estranhar que o cinema norte-americano tenha seduzido o p\u00fablico, visto que os filmes em voga, como agora, eram os de faroeste e, ainda por cima, seriados. Um faroeste que teve muito sucesso na \u00e9poca era um em que um dos figurantes se chamava Lolo, um tipo mi\u00fado parecido com um japon\u00eas. Dava gosto ver sua agilidade e leveza. Por isso, cinema era sin\u00f4nimo de filme americano, como acontece at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: justify;\">Enquanto isso, nascia a com\u00e9dia t\u00edpica dos Estados Unidos, angariando popularidade de todos os lados. Foi quando tamb\u00e9m surgiram Chaplin, Lloyd e Keeton, atores amados pelo p\u00fablico. Verdade \u00e9 que bem antes disso havia no cinema italiano o comediante chamado <em>O Novo Rei dos Patetas <\/em> (Andrew), um homem diminuto. Tamb\u00e9m ele abafou por algum tempo e os antigos devem conhec\u00ea-lo. Nessa mesma \u00e9poca, tamb\u00e9m, apareciam de tempos em tempos obras norte-americanas de longa dura\u00e7\u00e3o que deslumbravam os aficionados. Dentre elas, lembro ainda hoje de uma obra-prima do mestre Griffith. Fita particularmente longa &#8211; j\u00e1 n\u00e3o me recordo mais do seu t\u00edtulo &#8211; descrevia a evolu\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o das eras primitivas at\u00e9 a atualidade. O mundo inteiro vibrou com ela. Quanto \u00e0s fitas italianas, a maioria era produzida pela companhia Milano. <em>As Cruzadas<\/em>, <em>O Imperador Nero<\/em>, <em>Quo Vadis<\/em>: havia obras de grande porte. Na mesma \u00e9poca as grandes companhias cinematogr\u00e1ficas americanas eram a Paramount, a Fox (2), a Metro (3), a Universal e outras. Mesmo hoje n\u00e3o consigo esquecer da Blue Bird, pequena empresa coligada \u00e0 Universal. Suas obras, ao contr\u00e1rio daquelas agitadas que dominavam o p\u00fablico, eram extraordinariamente calmas. Colocavam-se numa linha id\u00eantica \u00e0 de Ibsen, que com seu aparecimento provocou uma reviravolta de cento e oitenta graus na literatura rom\u00e2ntica europeia: de alt\u00edssimo valor cultural, desprovidas de artif\u00edcios baratos, com temas que primavam pela seriedade. Tinham, portanto, um sabor \u00fanico que me levavam a jamais perd\u00ea-las. As fitas da Brewbird eram exibidas exclusivamente em duas ou tr\u00eas casas de cinema: no Konparu-Kan (cujo narrador era Tenrei Takita), de Shimbashi, e no Aoi-Kan (idem, Musei Tokugawa), em Akasaka. Faziam sensa\u00e7\u00e3o entre os f\u00e3s.<\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: justify;\">Mas retornando ao que relatei h\u00e1 pouco: as casas de cinemas, que no princ\u00edpio se restringiam ao Parque de Asakusa, come\u00e7aram a se espalhar por v\u00e1rias regi\u00f5es da cidade e, especialmente depois do grande terremoto da Regi\u00e3o Oriental, apareceram por todos os cantos. Ademais, o cinema japon\u00eas, que durante muito tempo s\u00f3 visava ao p\u00fablico infantil, passou, finalmente, a produzir obras para adultos. No in\u00edcio, nos tempos de Matsunosuke Onoe, eu n\u00e3o sentia a m\u00ednima vontade de ver filmes nacionais. Contudo, eu passei a assisti-los, h\u00e1 uns dez e tantos anos, ap\u00f3s ver Kazuo Hasegawa, cujo nome art\u00edstico na \u00e9poca era Tyojiro Hayashi, interpretar Sakasaki, o Senhor de Dewa, em <em>A Batalha <\/em><em> de Ver\u00e3o<\/em>, da companhia Shochiku. Esta obra, em vista de seu grande esquema e demais pontos, n\u00e3o fica a dever aos filmes ocidentais, fato que me assustou. Foi a oportunidade para que eu acabasse por me tornar, a partir de ent\u00e3o, f\u00e3 do cinema japon\u00eas. O resto, no que tange aos fatos mais recentes, como todos est\u00e3o por dentro, terminarei meu relato.<\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: justify;\">Todavia, pretendo p\u00f4r no papel algo que sinto em rela\u00e7\u00e3o ao cinema nacional hodierno. Diversamente dos tempos idos, o cinema japon\u00eas progrediu bastante. Contudo, &#8211; para falar francamente &#8211; resta uma faceta extremamente negativa. Quero admoestar com \u00eanfase esse ponto. Resumindo, em primeiro lugar, trata-se da inferioridade do seu n\u00edvel. Ouve-se dizer frequentemente que n\u00e3o se investe dinheiro nos filmes japoneses, por isso n\u00e3o se produzem fitas boas como as estrangeiras. Esta desculpa vem a ser um erro grav\u00edssimo. Afirmo isso com base no fato de o cinema italiano, que recentemente passou a gozar de enorme reputa\u00e7\u00e3o, com certeza gastar muito menos que o japon\u00eas. Tamanha reputa\u00e7\u00e3o deve-se \u00e0 exist\u00eancia, em algum lugar, de uma coisa que fascine tremendamente. Que seria isso? Trata-se, sem d\u00favida, da seriedade dos temas, inexiste qualquer artif\u00edcio barato para comprar aplausos. Jamais se subestima o p\u00fablico. Resumindo, evita-se o car\u00e1ter de espet\u00e1culo do cinema para descrever com fidelidade o ser humano, para descrever o gemido que brota do sofrimento social. Outrossim, \u00e9 profunda ao extremo a sua acuidade na avalia\u00e7\u00e3o da dor humana, o que faz com que, terminada a aprecia\u00e7\u00e3o de uma pel\u00edcula, nosso peito seja assaltado pelos mais variados sentimentos.<\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: justify;\">Em compara\u00e7\u00e3o, nem vale a pena discutir o cinema japon\u00eas, tamanha sua infantilidade. Somente busca o efeito do espet\u00e1culo, visando demasiadamente ao lucro. O que n\u00e3o se percebe, por\u00e9m, \u00e9 que o resultado vem a ser inverso. Prova evidente \u00e9 o vultoso n\u00famero de f\u00e3s seduzidos pelos filmes estrangeiros, deixando o ing\u00eanuo cinema nacional de lado. Chamo, portanto, a aten\u00e7\u00e3o dos produtores e diretores de cinema para que mudem radicalmente, o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, a sua maneira de pensar. Falando sucintamente, h\u00e1 que elevar o n\u00edvel global. H\u00e1 que produzir obras que penetrem a alma do p\u00fablico. O espectador deve ficar amarrado \u00e0 poltrona at\u00e9 o fim da pel\u00edcula.<\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: justify;\">(1) <em>Kineorama<\/em>: refer\u00eancia a cinerama.<\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: justify;\">(2) Fox: refer\u00eancia \u00e0 companhia Twenty Century Fox.<\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: justify;\">(3) Metro: refer\u00eancia \u00e0 companhia MGM (Metro-Goldwyn-Mayer)<\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"style59\">Eu &#8211; texto in\u00e9dito<\/span><\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: right;\"><span class=\"style59\">1952 <\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe src=\"http:\/\/www.facebook.com\/plugins\/like.php?href=https:\/\/www.jinsai.org\/pt-BR\/ensinamentos\/arte\/eu-e-o-cinema\/&#038;%0Alayout=standard&#038;show_faces=false&#038;width=380&#038;action=like&#038;colorscheme=light&#038;height=25\" style=\"border: medium none ; overflow: hidden; width: 350px; height: 25px;\" allowtransparency=\"true\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<p><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/pt_BR\/all.js#appId=APP_ID&amp;xfbml=1\"><\/script><fb:comments href=\" https:\/\/www.jinsai.org\/pt-BR\/ensinamentos\/arte\/eu-e-o-cinema\/\" num_posts=\"100\" width=\"500\"><\/fb:comments><meta property='fb:app_id' content='171964893011161'\/> <\/p>\n<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<p><script>(function(d, s, id) {\n  var js, fjs = d.getElementsByTagName(s)[0];\n  if (d.getElementById(id)) return;\n  js = d.createElement(s); js.id = id;\n  js.src = 'https:\/\/connect.facebook.net\/pt_BR\/sdk.js#xfbml=1&version=v3.0&appId=171964893011161&autoLogAppEvents=1';\n  fjs.parentNode.insertBefore(js, fjs);\n}(document, 'script', 'facebook-jssdk'));<\/script><\/p>\n<div class=\"fb-share-button\" data-href=\"https:\/\/www.jinsai.org\/pt-BR\/ensinamentos\/arte\/eu-e-o-cinema\/\" data-layout=\"button_count\" data-size=\"large\" data-mobile-iframe=\"true\"><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/sharer\/sharer.php?u=http%3A%2F%2Fwww.jinsai.org%2Fpt-BR%2Fensinamentos%2Farte%2Feu-e-o-cinema%2F&amp;src=sdkpreparse\" class=\"fb-xfbml-parse-ignore\">Compartilhar<\/a><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Constitui fato muito bem sabido entre os fi\u00e9is o meu gosto pelo cinema. 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