{"id":803,"date":"2018-06-22T11:40:47","date_gmt":"2018-06-22T14:40:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.jinsai.org\/pt-BR\/?p=803"},"modified":"2018-07-05T14:28:44","modified_gmt":"2018-07-05T17:28:44","slug":"cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jinsai.org\/pt-BR\/ensinamentos\/arte\/cinema\/","title":{"rendered":"CINEMA"},"content":{"rendered":"<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: justify;\">Todos aqueles que me conhecem sabem do meu gosto pelo cinema. Jamais me esquecerei: a primeira vez a que assisti a um filme foi quando tinha dezesseis ou dezessete anos, ou seja, h\u00e1 uns cinquenta anos. Digamos que eu seja um dos seus mais antigos f\u00e3s. Foi nessa \u00e9poca em que, pela primeira vez, uma pel\u00edcula cinematogr\u00e1fica entrou no Jap\u00e3o. Nem \u00e9 preciso dizer que se tratava de uma pe\u00e7a de um \u00fanico rolo que mostrava o movimento de ondas, um cachorro que se punha a correr, gestos de pessoas, etc. Algo extremamente infantil, visto sob a perspectiva de agora. Mesmo assim, todos arregalaram os olhos de espanto. Como o tempo opera transforma\u00e7\u00f5es! A primeira pe\u00e7a dram\u00e1tica era francesa. Contava a hist\u00f3ria de um marinheiro que, tendo voltado de viagem, se deparava com algum problema no lar. Mas j\u00e1 me esqueci do que se tratava. Era uma obra de um rolo, de conte\u00fado simples. Esses filmes eram exibidos numa humilde casinhola de nome Denki-Kan, no Parque de Asakusa, sendo que, pouco depois, apareceu um narrador, o afamado Saburo Somei.<\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: justify;\">De outro lado, em Nishiki-cho, no distrito de Kanda, havia uma casa de espet\u00e1culos chamada Kinki-Kan, esta bastante luxuosa. Antes de mais nada, seu sal\u00e3o possu\u00eda o aspecto do interior de uma mans\u00e3o nobre. Utilizada como sal\u00e3o de prele\u00e7\u00f5es, seu assoalho era recoberto com esteiras acolchoadas, onde, logicamente, o p\u00fablico sentava. O primeiro filme a que a\u00ed assisti era a pel\u00edcula francesa intitulada <em>O Dem\u00f4nio Aloprado<\/em>. Na verdade uma pe\u00e7a para crian\u00e7as, mas que por ser bastante divertida fez grande sucesso. O narrador daquele tempo era Koyo Komada. Seu capricho em ser extremamente incomum lhe rendeu fama. Posteriormente, construiu-se em Kanda o cinema Shinsei-Kan ao qual tamb\u00e9m ia ami\u00fade. De outra m\u00e3o, em Asakusa, al\u00e9m do Denki-Kan, surgiram seguidamente mais salas: San-yu-Kan, Fuji-Kan, Daisho-Kan, Teikoku-Kan, Nihon-Kan, etc. Na cidade, ainda, come\u00e7aram a aparecer aqui e acol\u00e1 outros cinemas.<\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: justify;\">Como constitui fato conhecido dos senhores, o cinema, no princ\u00edpio, era chamado de fotografia animada. Sua dura\u00e7\u00e3o, que no in\u00edcio era de um rolo, ficou progressivamente mais longa, com dois e tr\u00eas rolos. Nos primeiros tempos, predominavam as obras da companhia francesa Path\u00e9, que traziam a marca de um galo. Nessa \u00e9poca, uma pel\u00edcula que fez sucesso foi &#8220;Zigomar&#8221;, um filme de bandido cuja trama era a fuga, sob v\u00e1rios disfarces, do personagem principal do mesmo nome. Isso teve enorme aceita\u00e7\u00e3o entre o p\u00fablico. Havia tamb\u00e9m uma com\u00e9dia italiana em que um pequeno homem chamado Andrew atuava com grande agilidade. Era muito engra\u00e7ado, chegando-se mesmo a inventar o t\u00edtulo <em>O Novo Rei dos Patetas<\/em>, para sua pel\u00edcula. Depois, teve imenso sucesso o filme <em>Pegaso<\/em>, da companhia alem\u00e3 UFA.<\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: justify;\">Pouco depois, come\u00e7aram a entrar filmes norte-americanos. \u00c9 poss\u00edvel afirmar que estes, com a extraordin\u00e1ria dimens\u00e3o dos seus cen\u00e1rios e a nitidez das imagens, al\u00e9m do vigor da representa\u00e7\u00e3o dos artistas, atra\u00edram para si quase que a totalidade do grande p\u00fablico. O mesmo aconteceu tamb\u00e9m comigo. Na \u00e9poca o seriado <em>Meikin <\/em> fez tremendo sucesso. Mesmo hoje deve haver muita gente que o tenha visto. Ademais, foi a partir da\u00ed que os filmes de faroeste tornaram-se uma febre. Eram, naturalmente, seriados. O artista que concentrou sobre si a simpatia do p\u00fablico foi Lolo, um astro exclusivo de cinema que se parecia muito com um japon\u00eas. Posteriormente, quando a febre dos filmes de a\u00e7\u00e3o se arrefeceu, foi a vez das com\u00e9dias norte-americanas t\u00edpicas entrarem em voga. Foram muito bem aceitas, ent\u00e3o, as obras de Chaplin, Lloyd e Keeton.<\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: justify;\">Com a influ\u00eancia do cinema americano, os filmes europeus, produzidos na Fran\u00e7a, Alemanha e It\u00e1lia, tornaram-se raros. Momentaneamente, ingressou no pa\u00eds consider\u00e1vel n\u00famero de obras italianas de longa dura\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m elas foram sufocadas pelos filmes americanos e estes acabaram por monopolizar o mercado. As empresas de ent\u00e3o eram a Paramount, a Fox, a Metro Goldwyn, a Universal e outras, cada qual com sua respectiva peculiaridade. Esta \u00faltima contava dentre seus filmes com uma se\u00e7\u00e3o \u00e0 parte, a <em>Blue Bird<\/em>, que merece men\u00e7\u00e3o especial. Ate ent\u00e3o, as fitas de cinema tinham por objetivo apenas a divers\u00e3o, cheias de artif\u00edcios para tirar aplausos, fr\u00edvolas. Tal n\u00e3o se aplicava \u00e0s obras da Blue Bird. Desprovidas de todos estratagemas f\u00e1ceis, expressavam apenas a verdade, tendo alguma coisa que tocava o cora\u00e7\u00e3o. Pode-se estabelecer um cotejo com a oposi\u00e7\u00e3o entre a tend\u00eancia do romance europeu do s\u00e9culo dezoito, que n\u00e3o se desligou do teatro, e a seara virgem aberta por Ibsen, com o cultivo de um romance psicol\u00f3gico profundo. Assim, desnecess\u00e1rio dizer que os filmes Blue Bird foram amplamente bem recebidos pela classe intelectual, como obras destinadas \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o dos entendidos na arte do cinema. Gra\u00e7as \u00e0 sua influ\u00eancia, os filmes norte-americanos, repletos de artif\u00edcios para agradar o p\u00fablico, penderam para maior profundidade e peso.<\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: justify;\">Um diretor famoso desses tempos passados, ainda hoje dif\u00edcil de olvidar, vem a ser Griffith, um especialista em obras gigantescas. Um dos filmes realizados por ele, <em>Intoler\u00e2ncia<\/em>, tinha n\u00e3o apenas um conte\u00fado profundo, mas muito emocionante. Tamb\u00e9m inesquec\u00edvel \u00e9 Valentino, homem de rara beleza, que encantou plateias do mundo inteiro. N\u00e3o por sua arte, diga-se, mas por seu belo rosto. O \u00faltimo filme seu que vi foi <em>Sangue \u00e9 Areia<\/em>, uma adapta\u00e7\u00e3o da \u00f3pera <em>C\u00e1rmen<\/em>. Sua beleza chegava at\u00e9 o ponto de exercer fasc\u00ednio sobre o espectador masculino. Talvez, mesmo no futuro, n\u00e3o surja homem t\u00e3o belo quanto ele. Naturalmente era de se compreender que fosse a paix\u00e3o de todas as mulheres da face da Terra. Lament\u00e1vel, todavia, \u00e9 que Deus, agraciando-lhe com a beleza, n\u00e3o lhe concedeu a longevidade. J\u00e1 Douglas Fairbanks, com seu talento peculiar, conquistou momentaneamente a popularidade mundial.<\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: justify;\">Eis aqui o que pude registrar, vasculhando minha mem\u00f3ria acerca da era do cinema mudo. Em 1919, por\u00e9m, desde que me tornei seguidor da Igreja Oomoto, por v\u00e1rias raz\u00f5es, inclusive de natureza religiosa, deixei de assistir filmes por mais ou menos dez anos. Exatamente nessa \u00e9poca surgiu o cinema falado.<\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: justify;\">O que vim escrevendo se refere ao cinema estrangeiro. Verdade \u00e9 que, at\u00e9 ent\u00e3o, o cinema japon\u00eas n\u00e3o valia a pena ser visto. Como \u00e9 do conhecimento geral, com o nascimento do cinema falado, o narrador, cuja exist\u00eancia era imprescind\u00edvel, acabou por se ver na rua. Citarei o nome dos narradores de que mesmo hoje me recordo: Saburo Somei, Ten-han Takita, Tenpu Ishii, Raiyu Ikoma e Tenro Tani. Dentre os profissionais ainda na ativa temos: Roppa Furukawa, Musei Tokugawa, Shiro Otsuji, Suisei Matsui, Seiha Inokuchi e outros.<\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: justify;\">Desde que me desliguei da Igreja Oomoto, anteriormente citada, principiei a assistir filmes de novo. Gra\u00e7as \u00e0 minha extrema adora\u00e7\u00e3o ao cinema, que vem de nascen\u00e7a, a febre cinematogr\u00e1fica reacendeu-se. Desde ent\u00e3o, continuo at\u00e9 hoje a assistir ao maior n\u00famero poss\u00edvel de filmes.<\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: justify;\">A primeira pel\u00edcula a que assisti, depois da lacuna de dez anos h\u00e1 pouco citada, era intitulada <em>A Batalha de Ver\u00e3o de Osaka<\/em>, na qual o ator Kazuo Hasegawa &#8211; que usava o nome art\u00edstico de Tyojiro Hayashi &#8211; interpretava o papel de Sakasaki, o Senhor de Dewa. Fiquei, ent\u00e3o, inteiramente pasmado. Jamais poderia nem mesmo sonhar que o cinema nacional fosse capaz de progredir tanto, durante o tempo em que estive afastado da \u00e1rea. Escusado dizer que esse constituiu o motivo de eu me tornar f\u00e3 do cinema nacional. Os filmes japoneses que vi a partir da\u00ed e que me ficaram na lembran\u00e7a s\u00e3o: <em>Tange Sazen<\/em>, <em>O Desfiladeiro Daibosatsu<\/em>, <em>A Saga do Bando de Ladr\u00f5es dos Reinos Beligerantes<\/em>, <em>Tsurujiro Tsuruhachi<\/em>, <em>Sumako Matsui<\/em>, <em>No Extremo do Pico Nevado<\/em>, etc.<\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: justify;\">O cinema norte-americano atual n\u00e3o mais me emociona como outrora. A raz\u00e3o reside no fato de muitas de suas tramas abordarem temas caseiros, n\u00e3o se vendo mais obras de grande escala ou com\u00e9dias de n\u00edvel superior como antes. Concretamente falando, por n\u00e3o compreender o idioma, quando aparecem casos complicados nas fitas de temas familiares, fico sem entender bulufas. Talvez seja isso que as torne sem gra\u00e7a. Um desses motivos estaria no fato de que, depois do aparecimento do cinema falado, acabou a necessidade de mostrar o conte\u00fado por m\u00edmica, como se fazia no cinema mudo. Dentre os filmes americanos, ainda hoje n\u00e3o consigo esquecer <em>Hurricane<\/em>, <em>Chicago<\/em>, <em>A Grande Plan\u00edcie<\/em>, etc. Apesar de poucas, h\u00e1 obras do cinema ingl\u00eas recente que devem ser vistas. J\u00e1 quanto ao franc\u00eas, a maioria s\u00e3o filmes de amor, pelos quais n\u00e3o sinto grande atra\u00e7\u00e3o. Penso que a causa, todavia, poderia estar na minha idade.<\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: justify;\">Conquanto isso n\u00e3o seja muito v\u00e1lido para a \u00e9poca do t\u00e9rmino da Segunda Guerra, o cinema nacional tem produzido alguma coisa boa ultimamente. Tamb\u00e9m \u00e9 fato indiscut\u00edvel que a t\u00e9cnica de filmagem e tudo o mais tenha se desenvolvido em conjunto. No entanto, existem ainda muitas falhas. Citarei, por exemplo, a inclus\u00e3o de artif\u00edcios f\u00e1ceis para roubar aplausos do p\u00fablico na trilha dos filmes sonoros. Quando estamos com a respira\u00e7\u00e3o suspensa, tamanho \u00e9 o interesse que nos prende ao desenrolar do cen\u00e1rio, deparamo-nos com uma situa\u00e7\u00e3o despropositada e desnecess\u00e1ria que acaba por desfazer instantaneamente a emo\u00e7\u00e3o que nos tomava at\u00e9 a\u00ed. O pessoal do cinema deveria mostrar maior interesse por isso, raz\u00e3o que me obriga a fazer esta cr\u00edtica \u00e1spera. Todavia, digno de se elogiar \u00e9 a arte dram\u00e1tica dos atores contempor\u00e2neos. Reconhe\u00e7a-se que esta evoluiu bastante. Verdade \u00e9 que isso, talvez, se deva \u00e0 quantidade de tomadas em &#8220;close-up&#8221;, diversamente do que antes acontecia. Por fim, o que espero do cinema nacional s\u00e3o as obras de grande escala \u00e9 o colorido natural. H\u00e1 de se concretizar isto o quanto antes.<\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: right;\">Ensaios<\/p>\n<p class=\"style3 style48\" style=\"text-align: right;\">30 de agosto de 1949<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe src=\"http:\/\/www.facebook.com\/plugins\/like.php?href=https:\/\/www.jinsai.org\/pt-BR\/ensinamentos\/arte\/cinema\/&#038;%0Alayout=standard&#038;show_faces=false&#038;width=380&#038;action=like&#038;colorscheme=light&#038;height=25\" style=\"border: medium none ; overflow: hidden; width: 350px; height: 25px;\" allowtransparency=\"true\" frameborder=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<p><script src=\"http:\/\/connect.facebook.net\/pt_BR\/all.js#appId=APP_ID&amp;xfbml=1\"><\/script><fb:comments href=\" https:\/\/www.jinsai.org\/pt-BR\/ensinamentos\/arte\/cinema\/\" num_posts=\"100\" width=\"500\"><\/fb:comments><meta property='fb:app_id' content='171964893011161'\/> <\/p>\n<div id=\"fb-root\"><\/div>\n<p><script>(function(d, s, id) {\n  var js, fjs = d.getElementsByTagName(s)[0];\n  if (d.getElementById(id)) return;\n  js = d.createElement(s); js.id = id;\n  js.src = 'https:\/\/connect.facebook.net\/pt_BR\/sdk.js#xfbml=1&version=v3.0&appId=171964893011161&autoLogAppEvents=1';\n  fjs.parentNode.insertBefore(js, fjs);\n}(document, 'script', 'facebook-jssdk'));<\/script><\/p>\n<div class=\"fb-share-button\" data-href=\"https:\/\/www.jinsai.org\/pt-BR\/ensinamentos\/arte\/cinema\/\" data-layout=\"button_count\" data-size=\"large\" data-mobile-iframe=\"true\"><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/sharer\/sharer.php?u=http%3A%2F%2Fwww.jinsai.org%2Fpt-BR%2Fensinamentos%2Farte%2Fcinema%2F&amp;src=sdkpreparse\" class=\"fb-xfbml-parse-ignore\">Compartilhar<\/a><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos aqueles que me conhecem sabem do meu gosto pelo cinema. 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